quinta-feira, dezembro 01, 2005

Histeria colectiva

O despertador toca cedo. Muito cedo. Demasiadamente cedo. Abro, a custo, os olhos e mantenho-os semi-cerrados. Na realidade, e como é habitual, abro apenas o esquerdo; porque, também como é costume, acordo virado para a janela.

Apercebo-me que a persiana não ficou completamente fechada. Verifico isso porque há uma fina lâmina de sol que persiste em penetrar por entre duas réguas.

Sol? Aí está o incentivo que me faltava. Arrasto-me até à sala – que dorme sempre de persianas abertas – e confirmo a sua presença. Não há nada como uma fria mas solarenga manhã de Outono. Afasto as cortinas enquanto simultaneamente fecho os olhos e abro os braços. Assim permaneço, a usufruir deste privilégio matinal, durante aqueles dois ou três minutos que se transformam em eternidade.

Abro contrariada e lentamente os olhos. Grande algazarra ali adiante. Não, não são apenas a habituais e odiosas gaivotas. Há silhuetas, voos e bateres de asas bastante diferenciados. Garças já por aqui andam há umas semanas, e aqueles voos paralelos ao espelho de água são típicos dos patos – mais raros mas também usuais nesta época. Há, no entanto, ali algo que eu nunca vi por estas bandas: permanecem calmamente à superfície, aparentemente em inocente repouso até que, repentinamente, mergulham e desaparecem durante largos segundos. Já vi patos fazerem isto. Mas não permanecem tanto tempo submersos nem tem o pescoço tão comprido.

Corro à casa de banho e mergulho a cara em água fresca. Regresso à janela já munido de binóculos. Gansos! São gansos! Nunca os tinha visto por aqui.

Lá estão as garças no seu voo simultaneamente desengonçado e majestoso, sobrevoando tudo e todos, com a calma de quem todo um dia tem pela frente. Os patos, que ora voam, ora aterram planando na superfície de água mergulhando durante muito breves instantes. E ainda as gaivotas: aquelas ratazanas voadoras, como muito bem Sepúlveda lhes chamou um dia, com um voo pouco gracioso e uma postura parasita.

A grande novidade é a presença dos gansos. Que sorte! Que privilégio! Ao fim de alguns minutos vejo emergir um deles com um peixe na boca.

A vida pode, afinal, ser bela. Muito bela. No meio deste raro despertar assalta-me repentinamente o h5enenãoseidasquantas. Será que houve alteração das rotas migratórias? Merda! Odeio fazedores de notícias!

17 comentários:

sonia r. disse...

Boa tarde.

Pinto Ribeiro disse...

e samos dois. e resolvi seguir o teu exemplo e postar kundo kalha. a bloge tá uma merda. boa noite e bom feriado, Kamarada Blair. 1 abraço.

Anónimo disse...

Pois. É que é difícil mesmo...
Será chuva ou será gente?

sonia r. disse...

Bom dia.

Dinada disse...

Vives, concerteza, num local com vista privilegiada sobre a água...sortudo!

Beijo!

Eric Blair disse...

Bons dias a todos.
Obrigado pelas palavras de incentivo, PR.
Sobre o Douro, Dinada, sobre o Douro. É verdade, é privilégio.

Dinada disse...

'Podeçe' ter inveja????

frog disse...

E num havia lá umas perdizicas à mão de "semear" para as meter numa panela e fazer um bô refogado com elas??? ah!!

Bô tarde

mfc disse...

Mas que lindas vistas que tens... e sabes senti-la e aproveitá-la.
Disfruta-a então.

Anónimo disse...

Foste às Canárias, vives em cima do Douro, sabes preparar um bacalhau no forno.E tachos,tens?...

maresia disse...

as gaivotas são mesmo odiosas... porcas, barulhentas, más, preguiçosas... odiosas!

Elisa disse...

Olá Eric
Há tempo que não vinha por aqui. Fiz ruir o Pilar e esqueci-me de ir visitar os outros trabalhos em curso. A vida pode ser bela? Seguramente... mas quando?

Eric Blair disse...

Não Frog, perdizes não andam por aqui, e não parariam seguramente num dos meus tachos. Não como caça. Sou mesmo fundamentalista. Aparece mais vezes.

Eric Blair disse...

É verdade, Mfc, como já disse ali mais para cima à Dinada, tenho consciência de que é um privilégio. Os tipos de esquerda também gostam de coisas boas!

Eric Blair disse...

Ó anonimus; para quem não se apresenta acho que fazes demasiadas perguntas.
Arranja lá um nome, alcunha, qualquer coisa. Não é por nada, é que nem sei se é sempre o mesmo anonimus. Pá, no mínimo podias apresentar-te como anonimus I. Já chegava.
Anda lá, que eu para a próxima respondo-te

Eric Blair disse...

Vejo que estamos de acordo, Maresia. Vou arranjar tempo para te fazer uma visita lá num dos teus quiosques.

Eric Blair disse...

Ora até que enfim Elisa. Mantenho o teu link aqui na tasca, à espera que reconstruas o pilar. Se precisares de uns saquitos de cimento é só avisar. Não podes é desaparecer.